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Moçambique enfrenta agravamento da insegurança alimentar e entra no grupo dos países mais vulneráveis

RedacçãoMaputo3 min de leitura3 comentários

Moçambique enfrenta agravamento da insegurança alimentar e entra no grupo dos países mais vulneráveis

Maputo — Cerca de 3,5 milhões de pessoas em Moçambique encontram-se actualmente em situação de insegurança alimentar aguda, num cenário agravado pelos conflitos armados, dificuldades económicas e riscos climáticos. Os dados constam do mais recente Monitor de Segurança Alimentar da Alliance for a Green Revolution in Africa (AGRA).

Segundo o relatório, aproximadamente 18% da população analisada enfrenta níveis preocupantes de insegurança alimentar, sobretudo nas regiões afectadas pela violência em Cabo Delgado e no norte da província de Nampula. Nessas áreas, as populações continuam a sofrer limitações no acesso aos alimentos, aos mercados e às principais fontes de rendimento.

A AGRA alerta para a possibilidade de agravamento da situação entre Outubro de 2026 e Janeiro de 2027, período em que as reservas alimentares das famílias tendem a diminuir. O aumento dos preços dos produtos básicos e a perda do poder de compra poderão empurrar algumas comunidades para níveis ainda mais graves de insegurança alimentar.

Apesar de algumas zonas terem beneficiado das reservas existentes e da produção agrícola da segunda época, o relatório considera que estes factores poderão não ser suficientes para evitar uma deterioração das condições alimentares durante a próxima época de escassez.

Os preços dos principais produtos alimentares apresentam comportamentos diferentes. O milho, cereal fundamental na alimentação da população moçambicana, registou uma descida de cerca de 2% em Agosto, favorecida pela entrada de novas colheitas nos mercados.

Apesar dessa redução, o preço do milho permanece 10,7% acima do nível registado em Agosto de 2025. Já o arroz sofreu uma subida mensal de 3,6%, associada a dificuldades localizadas no abastecimento e aos custos das importações.

O relatório chama ainda atenção para o aumento dos custos energéticos. O preço do gasóleo encontra-se 85% acima do valor registado em Março, situação que contribui para encarecer o transporte, a produção e a comercialização de produtos agrícolas.

A violência armada continua a ser um dos principais factores de risco para a segurança alimentar no norte de Moçambique. Em Cabo Delgado e Nampula, os confrontos têm provocado deslocações populacionais e dificultado o acesso das famílias às zonas de produção, aos mercados e aos meios de subsistência.

Na região da África austral, a evolução da segurança alimentar não é uniforme. Enquanto a Zâmbia apresenta uma situação relativamente mais estável, apoiada por boas colheitas, Malawi, Moçambique e Zimbabué enfrentam perspectivas de agravamento durante a próxima época de escassez.

Outro factor de preocupação é a evolução do El Niño, que, de acordo com as previsões citadas no relatório, poderá provocar impactos significativos sobre o clima africano.

Para a campanha agrícola 2026/27, são esperados períodos de precipitação abaixo da média e temperaturas superiores ao normal em várias zonas da África austral. Caso as previsões se confirmem, a produção agrícola poderá ser afectada, com consequências directas sobre os rendimentos das famílias rurais e a disponibilidade de alimentos.

A insegurança alimentar permanece também elevada noutras partes do continente, sobretudo em países afectados por conflitos. A Nigéria apresenta o maior número de pessoas em situação de crise alimentar ou pior, estimado em 36,3 milhões, seguida pelo Sudão do Sul, com cerca de 7,8 milhões.

Na África Oriental, Sudão do Sul, Etiópia, Quénia e Uganda continuam a enfrentar diferentes níveis de pressão provocados por conflitos, deslocações populacionais, alterações climáticas e aumento do custo dos alimentos.

Na África Ocidental, países como Mali, Níger, Burkina Faso e Nigéria continuam afectados pela combinação de violência, insegurança e perturbações nos mercados, embora a chegada das novas colheitas possa contribuir para melhorar a oferta alimentar em algumas regiões.

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