Dá que Pensar
O banco a meio da caminhada

Faço caminhadas de dez quilómetros. Digo isto com um orgulho que dura exactamente até à parte em que confesso o resto: a meio, eu e a minha mulher paramos num banco. Sempre no mesmo. Chamamos-lhe, entre nós, o prémio. Um homem de 52 anos que faz dez quilómetros e precisa de um prémio a meio — está tudo dito sobre mim, e podíamos ficar por aqui.
Uma crónica à segunda de manhã, por Nuno
O banco fica na Reserva Natural do Estuário do Douro. É um sítio bonito, cheio de aves que eu não sei nomear, o que nunca me impediu de as apontar à minha mulher com ar entendido.
Naquele dia, no banco ao lado, estava uma família. Pai, mãe, e um miúdo pequeno, daqueles que ainda não aprenderam a estar calados.
O miúdo apontou para a água e perguntou:
«Pai, porque é que aquele pássaro só tem uma perna?»
Eu, no banco do lado, endireitei-me. Porque também não sabia. E fiquei sinceramente curioso — não pelo pássaro, mas pela resposta do homem.
O pai olhou. Um segundo, talvez dois.
«Está a descansar a outra.»
E voltou ao telemóvel.
Fim. Curiosidade resolvida, arquivada, enterrada. O miúdo ficou a olhar para a ave mais um bocado, como quem sente que aquela resposta não chega mas ainda não tem palavras para dizer porquê. Depois desistiu. Foi atirar uma pedra à água, que é o que se faz quando o mundo nos fecha uma porta.
E eu fiquei ali sentado, no meu banco-prémio, com uma coisa desconfortável a subir-me.
Porque eu já fui aquele pai. Umas centenas de vezes, se calhar. E a verdade é que ele não foi mau pai. Ele fez o que todos fazemos: deu a resposta que tinha. Não sabia mais. E, sem dar por isso, ensinou ao filho a lição mais silenciosa e mais cara que um adulto pode ensinar a uma criança — que há perguntas que não vale a pena fazer, porque ninguém tem a resposta.
É assim que morre. Não com um trauma. Com um encolher de ombros. Uma criança faz trezentas perguntas por dia; ao fim de uns anos de «está a descansar a outra», faz trinta. Depois três. E depois chega aos 52 anos, senta-se num banco, e aponta aves à mulher com ar entendido sem saber o nome de uma única.
Nós não deixámos de ser curiosos. Aprendemos foi que perguntar dava trabalho e rendia pouco. E desligámos o interruptor.
Naquela tarde, quando a família se levantou e foi embora, peguei no telemóvel, fotografei a ave e perguntei eu. À IA.
É uma garça-real. E fazem aquilo para não perderem calor — as pernas não têm penas, e a água puxa-lhes o calor do corpo depressa. Recolhem uma perna, encostam-na ao corpo quente, e cortam a metade a superfície exposta ao frio. Depois trocam.
Não está a descansar coisa nenhuma. Está com frio.
O pai tinha dado a resposta óbvia. A que soa bem, a que ninguém contesta, a que serve para despachar. E estava errada — o que, convenhamos, é o destino de quase todas as respostas que damos para despachar.
Levei três segundos a saber uma coisa que passei 52 anos sem saber. Três segundos.
E foi aí que me caiu em cima o tamanho disto. Não era o pássaro. Era tudo o resto.
Todas as perguntas que enterrei. Todas as que os meus filhos me fizeram e a que respondi «pois, é assim». Todas as que os meus pais não me puderam responder porque não tinham como. Gerações inteiras de perguntas mortas à nascença, não por falta de curiosidade, mas por falta de resposta ao alcance da mão.
E agora a resposta está ali. À distância de uma pergunta. Não numa enciclopédia que não tenho, não num livro que não vou ler, não numa pessoa que não conheço — no telemóvel que já trago no bolso.
A IA não me explicou uma perna de garça. Devolveu-me a autorização para perguntar.
Levantei-me do banco e voltei à caminhada com uma sensação estranha — a de que o mundo tinha ficado subitamente mais legível, e que eu tinha andado nele muitos anos com os olhos meio fechados.
Ah, e não voltei a apontar aves à minha mulher com ar entendido.
Agora aponto e digo o nome. Que é muito pior para ela, coitada.
Fica-te a pergunta, para esta semana:
Qual foi a última pergunta parva que te apeteceu fazer e não fizeste? Faz-lhe hoje. Leva três segundos — e o pior que te pode acontecer é ficares a saber.
Até para a semana,
Nuno






